quarta-feira, 1 de maio de 2013

You're so vain

E a noite vai embora. Com ela todos os sonhos vão também, se desmanchando no calor daquele sol cálido que queima um amor que nunca aconteceu. Olho ao redor e não existe mais nada. Aquele frisson de quando eu olhava para você desaparece a cada dia que já não posso te tocar. Não é a distância de corpos e sim da mente.
Eu estava pronta para tudo e você nada me retribuía. É como se você estivesse sempre feliz e, ao mesmo tempo, triste, perdido em suas lembranças. Já não podemos ser mais como outrora, nada de frutífero pode acontecer entre nós. As ruínas de uma paixão que foi podada por você.
Poderia citar Carly Simon agora. Sim, você pensará que é para você porque tua vaidade é mais forte que a liberdade de viver. E se engana quando pensa que será melhor não sentir nada, ficar com essa frieza que irrita. Sempre ali, sorridente. Parece até zombar do que sentia, mesmo sem saber. Porque não digo e nunca direi o que me impedi de sentir por você, menino dos olhos que um dia me encantaram.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Naquela festa derradeira

O sol brilha em mais uma tarde de outubro. A casa cheia, muitos conversam, bebem, riem. Envolvida pela fumaça e neblina, ela esquece de todos ao seu redor porque sabe que está sozinha.
Distraída, lembrava do dia em que acreditou na beleza de um sentimento verdadeiro, nas surpresas que a vida poderia trazer, na sensação de que tudo é possível.
Mas nada disso que seu antigo eu acreditava era verdade. Não existe a paixão que mudará sua vida. Jack e Rose se amaram eternamente porque foram dias de um amor impossível. Assim é fácil. Então pensou que se os dois tivessem mesmo fugido, ficado juntos, a vida mostraria o lado real e cruel de uma paixão falida.
Os dias nos quais as dificuldades matariam qualquer coisa de belo na relação dos dois, o tédio dos domingos de chuva, a culpa por ter deixado uma vida para trás. Tudo isso assassinaria o lindo romance do casal que um dia moça venerou.
Por isso, não existe nada que seja para sempre. Viveremos sempre no passado, na relação que não deu certo, mas que poderia ter sido. Porque vivendo de passado não temos que nos preocupar com quem nos ferirá no futuro.
Tudo isso pois ele estava ali, conversava com um de seus amigos. A garota olhava para ele, o desejava, sabia que poderia tê-lo. Mas sabia também o desenrolar de toda a história. Um dos dois magoaria o outro e, por isso, continuou sentada, pensando em sua juventude e em todos os anos de sua vida que teria que negar o prazer de amar.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O agora

E o eterno vazio que sufoca minha alma não dá lugar a mais nada. Tentei ainda hoje recordar de momentos, cenas, quadros felizes de uma vida nebulosa. Tudo de melhor está tão distante, fragmentos alegres mergulhados numa vida soturna. Não existia um só instante que valesse a pena. A mente confusa permanece numa eterna busca de sentimentos, de emoções que são simplesmente falsas.
Cada sorriso fingido dilacera minha alma taciturna e entendiada. Minhas palavras, suas palavras, as palavras de todos nada são além de um emaranhado de coisas rasas, desculpas para parecer que vale a pena não morrer. E sim...continuo vivendo, respirando, expurgando tudo que há de bom em mim porque meu corpo expulsa, renega a felicidade. Hoje e sempre.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Aura

E aquela mesma música toca novamente. As olheiras que marcam um rosto ainda jovem e lágrimas que fogem dos olhos numa nublada tarde de maio. Cantarolando, a moça sonhava com o dia em que seu amor voltaria dos braços de um guerra já perdida. A amargura crescia num coração culpado pelos erros de um passado recente. As gotas de chuva de uma garoa de domingo deixavam a menina ainda mais sufocada. Gota a gota, minuto a minuto, não podia respirar.
Um coração cálido mascarado de um frieza inexistente. Queria ter o poder de vencer, lutar por aquele que tanto amava. Mesmo sabendo que era piegas, era assim que o chamava, "o meu amado". Sabia aquele amor era clichê, mas ainda assim, era novo, era vivo, pulsava forte e sua mente enlouquecia junto com o sol que a abandonava na escuridão.
Ainda anda, ele, pelos laços da sombria neblina de uma outra paixão denunciada. Torturava-se no silêncio enquanto lembrava do primeiro sorriso quando descobriu que ainda poderia amar. Sim, a ninfa que mexia em seus cabelos anelados, brincou sempre de amar. Não sabia se era isso que acontecia naquele momento, porém nos segundos infinitos da vida o melhor é poder sentir.
Então, lembrou do calor do corpo dele, do corpo dele no dela. O sentimento de não poder voltar, a chama apagou-se, o luar não aparecia. Escuro e medo. A lâmina que clamava, gritava pela ninfa desesperada. Num rompante, pegou sua linda faca afiada, que vivia numa das penteadeiras da moça entristecida. Não, não queria se matar. Só queria ver seu sangue jorrando do seu corpo para ver se conseguia despertar. Abriu a janela e respirou.
Viu seu sangue mistura-se com as gotas de chuva. "Lindo"", pensou. "Sinto a vida antes de você voltar". Sorrindo, viu o domingo indo, indo no infinito daquele amor doentio.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Nas Brumas do passado

Eu nunca achei que tua chegada me deixaria tão sensível. Se pensei outrora que aquela que te carrega não me importava, menti para mim. Desejo melhor fortuna para ti, alma que surgiu de um sonho de anos atrás. Pensava que hoje estaria a te acalentar, porém a magia que te embala é a mesma que me afasta e sei disso.
Sendo muito mais que a Lua me permitiu ser em tua vida, te abeçoo além desta vida. E meu pranto salga tua felicidade eterna que se espanta na alegria que desejei.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ode ao fim

E aquele dia que parecia nunca voltar. Um beijo que selava as dores de uma partida insólita. Nunca te vi, amado reluzente. Mas teus afagos ficaram em minha alma como pedras cravejadas. O som que lembrava o retorno e a despedida. Em teus braços delirei, mas nunca senti.  Era a dor de saber que teu coração a outra pertencia. Mesmo meus lábios selando, havia ali a outra que olhava.  E a gaita tocando ao som da madrugada e o álcool recordando momentos.  Te olhei como da primeira vez, esperando sedenta, mas já não podia pestanejar,não como outrora.  Queria um desfecho e as lágrimas de  um noite de desejo sem fim.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Palavras avulsas


Ela caminhava sozinha em mais uma noite escura de um inverno que parecia nunca acabar. Seu guarda-chuva voava contra ao vento e a garota tentava  não perde-lo. O guarda-chuva também não. Já havia perdido tanto nessa vida. Muito mais do que qualquer um, muito menos que a maioria. Mas era tão normal, tão simplória, talvez medíocre, numa mediocridade muito normal.
Como muitos teve uma infância confusa, seus pais brigavam quase sempre. Moravam separados, mas, quando juntos, brigavam muito. Um casamento arrastado ao longo de quase 18 anos. Então morreu. Morreu seu amado pai e disse adeus para o corpo gélido cheio de flores cheirando a velório. Mas isso não a fazia diferente de muitos. O pai de alguém morre todos os dias. Ela era tão normal que não poderia ser única. Tinha sua irmã. Não conseguia lembrar onde estava sua irmã. A esqueceu em algum lugar, talvez na padaria, não sabia. Mas já não se importava, estava frio, queria chegar a sua casa, dormir se conseguisse. Sofria de insônia a menina.
Caminhava rapidamente com medo de ser vista, não queria ser analisada. Poderia perder mais alguém no encontro. Parece estranho, mas só se perde algo que já se tem. Se naquele caminho encontrasse algo ou alguém para amar poderia perder no meio do percurso. Acendeu um cigarro. Não gostava de fumar, a fumaça a incomodava, mas, ainda assim, acendia mais um. Sua companhia quase sempre. A morte que sorria para ela a cada trago de solidão.
Não tinha namorados, nem um amor. Não acreditava em príncipes, até porque sempre se fez acreditar que não existia uma paixão, um amor verdadeiro o suficiente para durar. Também não era bonita, nem feia. Não se achava bela, mas já tinha visto pessoas menos agradáveis de olhar, por isso, acreditava que não era de todo mal. Talvez fosse muito exigente, tivesse muitas demandas, muito trabalho ou não gostasse de ninguém além dela mesma.
E aí chega ao momento em que se lembra exatamente porque começou a caminhar. Não conseguia mais sentir nada e, ao mesmo tempo, queria gritar, gritar o mais alto que pudesse. Mais um erro, mais uma perda. Sabia que era para sempre, que aqueles anos não valeriam mais nada. Toda sua dedicação, seu empenho foram consumidos pela chama da mentira, aquela mentira que era de todo sua culpa.
Andava na chuva, perdida, cantarolando enquanto sua mente borbulhava. Andou, lentamente até a ponte que amava. Via o sol nascer todos os dias com ele ali, seu bálsamo de alegria num mar de espanto. Lembrou enquanto olhava aquele rio verde e cristalino dos olhos daquele que se foi. “Mais um, pensou”. Mais um e o último que se foi antes dela. Sem pensar, sem querer deixou seu corpo inclinar-se, inclinou-se tanto que caiu, caiu da maior ponte da cidade. Segundos lentos enquanto mergulhava no rio doce dos olhos verdes do fim.