Um certo desespero invade minha alma e respiro tentando me lembrar onde estava meu tesouro fúnebre, minha arma contra a monotonia de uma vida sóbria. Olhando melhor ao redor, percebo que tudo havia mudado de lugar, os móveis, os objetos, a minha casa. Tudo.
A angústia podia ser saciada por outra coisa então. Além do cigarro e do sono, que já havia me deixado, nada melhor do que me deliciar com alguma comida calórica e que mata só de olhar.
Esperançosa, parto para cozinha procurando um conforto, um remédio para a solidão, para o vazio em mim. Procuro calmamente qualquer coisa que possa me divertir por uns segundos e me culpar por muitas horas. Nada. Irrito-me. "Onde estão minhas coisas?", pensei. A raiva me invade por completo. Sem cigarros, sem ataques matutinos à geladeira. "Será que tudo estava perdido?"
Paro e escuto uma risada, ao longe, uma voz que sussurra ao meu ouvido. Sei que há sim uma solução melhor do que a fuga, melhor do que uma desculpa para uma subvida. Sinto meus pés formigarem e meu corpo sendo puxado, arrancado do tempo e do espaço. Abro os olhos e vejo meu quarto exatamente como era antes. Ainda é noite. Corro para a varanda e vejo as estrelas que brilham na imensidão. Não penso em mais nenhum paliativo para tristeza porque não estou mais taciturna como antes e sim espero o anjo voltar para que eu possa dormir novamente em seus braços.





