sábado, 8 de maio de 2021

Aquele companheiro celta

 Era um profundo vazio. 


Rios de lágrimas secaram em teus beijos, numa ternura cálida que jamais sabia existir. Eram lábios que selavam minha sentença, buscava escapar e resistir. Nutria dores antigas, travava batalhas infernais enquanto num sorriso doce, me vi prisioneira de um contentamento impossível. Queria olhar a neblina dos sonhos, entre escombros e palavras que jaziam em terras sombrias. Sufocando a paixão que vingava em terra morta, maldizeres eternos apunhalavam aquela que deixava latente seu horror, enfim. 

E quanto mais tentava se esconder naquele poço raso, mais emergia sinuoso e sorridente. Zombava cambaleante o combatente que me olhava firme, como aquele que não iria desistir. Era vento, força e tempestade me inundando com afagos jamais sentidos. Era Ofélia, quase rainha, abandonada, selando meu destino ao qual não posso mais repelir. 

Entre suspiros amargos, vendo a noite se tornar madrugada, na aurora sombria do não mais existir, te olhava buscando a eternidade de um momento finito. E ruge mais um dia expurgado, enquanto vejo aquele adeus que não queria te dizer, voltar no tempo, parar cada segundo naquele contento, enquanto a alvorada me torturava. E tu envolto numa ternura branda, sorriu sem saber nada.

Era ódio e catarse bradando o desejo que não posso revelar. Feito flores sinto-me ameaçada, em tua espada a luz se vê em cores, entrego então meu coração aos pedaços em troca das lembranças de afagos doces.

Mas queria lhe dizer antes de mais nada, que és brio em meio ao vendaval, num solilóquio de amores infinitos, brisa intensa que move as minhas montanhas. Pois de mim escorre veneno e letargia de quem só pensa na finitude, arranco o anúncio dos dias, trazendo o horror que em mim reverbera.

E da finitude nascem essas palavras, que escorrem tácitas em plenos temores, mas eternas serão enquanto viverem essas lembranças.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Todos os sentimentos

Mais uma vez passeio pelas palavras para tentar respirar e tirar a falta de ar, a tontura de um sufocar infinito. Nunca começo falando de você, não quero parecer óbvia quando falo de amor e suas decepções. Mergulhando em sonhos eternos deitei-me em seus braços e deixei que você seguisse cada passo por si só, somente você me carregando pela vida. Mas o problema não foi esse. O pior de tudo é que, enquanto enfrentava o peso em suas costas, eu balbuciava palavras que saiam sem pensar e fui envenenando cada minuto da caminhada até a alvorada. Sempre soube que não poderia me suportar, que era demais para você,mas eu persisti, você persistiu.
O que nunca percebemos ou entendemos ou fingimos não compreender é que não tínhamos que preencher o vazio um da vida do outro, não é nossa obrigação retirar as mazelas que, sombrias, retiram nossa felicidade. Quais são as obrigações? Nenhuma e todas do mundo. Os sorrisos, aquelas conversas regadas à cervejas baratas e tantos cigarros, os beijos embaixo dos postes de uma noite pouco iluminada, carteados até o nascer do dia. Foi isso que queria, sempre isso, para sempre. Mas o futuro só trouxe os desentendimentos e a tristeza de saber que nada dura para sempre. Fiz...fiz planos junto contigo e criamos um mundo só nosso onde tudo daria certo. Tentei te proteger das desilusões que apareciam em seu caminho, mas só te trazia decepções, cobranças e vontades que não poderiam ser realizadas.
Sonhei, todos os dias, que de repente você me olharia e perceberia que eu era a ninfa dourada que você desejava, aquela presente, ao seu lado. Quando isso aconteceu não sei o que me deu, não sei em que momento eu errei, você errou. Será que nos enganamos? Será que aqueles dois que esperavam tantas coisas boas desapareceram? Porque a minha vontade sempre foi te fazer feliz, roubar um sorriso que faziam seus olhinhos castanhos brilharem.
E se eu desistir, se eu voltar atrás? Uma das possibilidades é essa...eu voltar correndo pros seus braços e te implorar para darmos mais uma chance pra gente, chorar e te dizer que te amo e que só quero estar do seu lado e basta. Mas você vai aceitar? Vai me ligar? Vai aparecer, em meio a uma chuva torrencial, todo molhado, em minha porta e se ajoelhar e dizer que não sabe viver sem estar ao meu lado? Acho que não. Já usei todos os meus curingas, meu caro, fiz até uma canastra com eles.
Queria poder conversar mais um pouco, tentar resolver todos os nossos problemas, agora, nesse momento. Mas sei que não dá. Você está cansado de mim, cansado da vida. E nesses momentos de apatia eu perco qualquer poder que tinha com você. Te perdi porque não te entendi e você também. Achou que me entendia e muito. Mas não parou para decifrar meus sonhos e eu só soube esperar que isso acontecesse. Cada minuto, cada segundo de cada dia queria passar olhando seu rosto, passando meus dedos em seu cabelo, horas e horas, para sempre.

Mas, deixando tudo de lado, ouço as músicas que escolhemos como nossas enquanto imagino que você está sofrendo consigo mesmo, mas bebendo, rindo e se divertindo com pessoas que te deixam livre. Meu amor era para ser assim, mas te aprisionou. Amei demais, tanto que te machuquei com meus afagos, meus beijos, com a vontade de ser um só o tempo todo. Contudo, se eu tivesse superpoderes, por algumas horas,escolheria poder de voltar no tempo, para a última vez que me deu adeus e eu, simplesmente, virei as costas achando que te beijaria mais uma vez.   

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O que vence a guerreira

Amarga ternura caminhava possuindo a rotina que desvanecia a juventude de uma ninfa dourada. A voz emudecia e o soluço pestanejava para sair como um grito que se rompeu numa madrugada infinita. Não eram mais vermelhos  seus lábios, mas sagravam desatinados procurando em desespero a fortuna almejada. A união de palavras destoantes estava escassa e doía e gemia e torturava aquela que rodopiava em pensamentos, em sonhos esquecidos. De onde vinha tanta dor? Não sabia e procurava sem sucesso e continuava sangrando e sorvendo o sangue que escorria em seu rosto agora rubro. Mais uma volta no nada, mais um delírio passageiro e lanças que perfuravam um coração já morto.
Cada escolha tinha feito dela uma pessoa maculada. Eram as brasas de um futuro previsto que corria em alcançar a dama naquela brisa e na alvorada. Cálido vento cantava em seus ouvidos atentos esperando que surgisse do nada mais um ser ao luar. Eterna espera enquanto era acalentada pelas folhas de uma floresta morta, morta com a esperança de poder escutar outra voz além da sua própria. O sorriso que se fechou por conta de um passado recente. Queria esquecer as lamúrias de outrora, mas a memória pulsava na mente da menina desacreditada. Suspiros em vão percorrendo um corpo jovem, uma alma cansada enquanto mais um dia qualquer nascia em sua frente.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Onde morrem as flores

Ela olhava as folhas que caiam tristes daquela árvore já esquecida. Eram histórias antigas que faziam da ninfa nada mais do que uma menina solitária. Um balanço vazio e aquele jardim quase morto. Chorava, as nuvens corriam selvagens num céu ensolarado de dezembro. Não entendia o sangue que jorrava por suas pernas tremulas. Esse medo, era aquele medo que teve em toda sua vida.
Uma angústia infinita e as marcas deixadas pela vida que nunca mais vão embora. Procurava ansiosa, em vão, um amigo perdido entre as flores murchas que desmanchavam do seu peito. Uma dor que precisava de afago, mas nenhum afago seria suficiente. Sentiu o gosto do sal da água que rolava em seu rosto cansado. Um último pôr do sol, só mais um, antes de não mais viver.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Leidenschaft

Mais uma noite escura numa madrugada fria de outubro. Ele tomava a ninfa sonhadora em seus braços enquanto uma música antiga tocava longe, quase imperceptível. Puxava seus longos cabelos e dizia impropérios banhados pelo luar. Era ele. Era ele, e não o outro, cavaleiro escolhido para caminhar em delírios e, sem medo, devanear.
Tempestade e silêncio. O coração que para e a dor que, aos poucos, deixa de existir. Via cada flor que caía em sua varanda e a chuva que embaçava a janela de seu quarto. Suspiros e afagos, lancinantes pensamentos que palpitavam na mente da menina que um dia não teve esperanças.
Não tinha o controle dessa vez, a madrugada lhe dava um beijo doce e manso, condenando o dia e o sol prestes a raiar. Temia que aquele momento não voltasse, nunca se superasse, mas sorria quietinha, num cálido deleite e, então, não mais respirar.

sábado, 24 de agosto de 2013

Um sonho derradeiro

...e a ninfa delirava, embebida de uma sensação que não conhecia há muito tempo.

Pulava da varanda banhada pelo luar, numa noite fria de setembro. A menina tentava sentir, absorver cada instante na presença daquele que a fitava com seus olhos de espanto. Corria envolvendo - a num mar de sorrisos e lágrimas.Aprender aquela nova dança, não mais segurar a vontade e o desejo, saber  que tudo era seu, era possível, enquanto ali estava.
Sem a amargura de outrora, não sabia lidar com a falta de taciturnidade em sua vida. Não era mais só, não era mais pura mas era fogo e brasa e vento. Uma menina que brincava de ser mulher correndo atrás do tempo que os afastaria.
 O cavaleiro solitário uniu- se à garota que das águas surgia.

Cantava sem medo enquanto entrelaçava suas mãos nas dele. Era a sensação que sempre negou, fugiu, odiou. Não seria mais a ninfa lamentadora das mazelas do amor. Eram cálidos os lábios que beijavam-se numa madrugada de gritos e tristezas que não mais podia escutar. Escondeu a melancolia. Sorveu do mundo um prazer que não a pertencia. Entregou-se ao delírio de mais uma noite que um dia nada mais valeria.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Para o dia dos patinhos na lagoa



Ela estava ali, sozinha perdida entre as folhas de um jardim abandonado e nebuloso. Precisava ir, estava atrasada por causa de uma tempestade que a prendeu naquele lugar assombroso. Ouvia vozes que a chamavam, distantes, aterrorizantes. Sabia que era hora de ir, mas queria ficar mais um pouco com as flores mortas, única companhia que teria que abandonar.
Sim, era sempre solitária aquela menina dos olhos negros. Caminhou em direção ao tormento de mais uma vida na qual passaria as horas de dias infinitos. Não queria mais aquele vazio, queria o poder da escolha, uma pessoa na qual pudesse acompanhá-la em todos os minutos da complicada existência humana.
Como uma surpresa flamejante, seus cabelos de fogo projetaram a imagem mais perfeita da felicidade na Terra. A menina não amava ninguém mais do que ela mesma, queria para consigo alguém que fosse uma velha alma perdida nos séculos de outras mortes já conhecidas.
Conjurou então um espelho que levaria com ela para a eternidade e esse espelho criou uma garota a sua imagem e semelhança mas com uma alma de um passado não tão distante. Desde então, por mais de duas décadas não se sente mais só, a linda menina ganhou uma alegria, uma companhia para suas brincadeiras e momentos taciturnos.
Suas vontades geraram uma outra vida que se entrelaçou a dela para todo sempre.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

You're so vain

E a noite vai embora. Com ela todos os sonhos vão também, se desmanchando no calor daquele sol cálido que queima um amor que nunca aconteceu. Olho ao redor e não existe mais nada. Aquele frisson de quando eu olhava para você desaparece a cada dia que já não posso te tocar. Não é a distância de corpos e sim da mente.
Eu estava pronta para tudo e você nada me retribuía. É como se você estivesse sempre feliz e, ao mesmo tempo, triste, perdido em suas lembranças. Já não podemos ser mais como outrora, nada de frutífero pode acontecer entre nós. As ruínas de uma paixão que foi podada por você.
Poderia citar Carly Simon agora. Sim, você pensará que é para você porque tua vaidade é mais forte que a liberdade de viver. E se engana quando pensa que será melhor não sentir nada, ficar com essa frieza que irrita. Sempre ali, sorridente. Parece até zombar do que sentia, mesmo sem saber. Porque não digo e nunca direi o que me impedi de sentir por você, menino dos olhos que um dia me encantaram.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Naquela festa derradeira

O sol brilha em mais uma tarde de outubro. A casa cheia, muitos conversam, bebem, riem. Envolvida pela fumaça e neblina, ela esquece de todos ao seu redor porque sabe que está sozinha.
Distraída, lembrava do dia em que acreditou na beleza de um sentimento verdadeiro, nas surpresas que a vida poderia trazer, na sensação de que tudo é possível.
Mas nada disso que seu antigo eu acreditava era verdade. Não existe a paixão que mudará sua vida. Jack e Rose se amaram eternamente porque foram dias de um amor impossível. Assim é fácil. Então pensou que se os dois tivessem mesmo fugido, ficado juntos, a vida mostraria o lado real e cruel de uma paixão falida.
Os dias nos quais as dificuldades matariam qualquer coisa de belo na relação dos dois, o tédio dos domingos de chuva, a culpa por ter deixado uma vida para trás. Tudo isso assassinaria o lindo romance do casal que um dia moça venerou.
Por isso, não existe nada que seja para sempre. Viveremos sempre no passado, na relação que não deu certo, mas que poderia ter sido. Porque vivendo de passado não temos que nos preocupar com quem nos ferirá no futuro.
Tudo isso pois ele estava ali, conversava com um de seus amigos. A garota olhava para ele, o desejava, sabia que poderia tê-lo. Mas sabia também o desenrolar de toda a história. Um dos dois magoaria o outro e, por isso, continuou sentada, pensando em sua juventude e em todos os anos de sua vida que teria que negar o prazer de amar.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O agora

E o eterno vazio que sufoca minha alma não dá lugar a mais nada. Tentei ainda hoje recordar de momentos, cenas, quadros felizes de uma vida nebulosa. Tudo de melhor está tão distante, fragmentos alegres mergulhados numa vida soturna. Não existia um só instante que valesse a pena. A mente confusa permanece numa eterna busca de sentimentos, de emoções que são simplesmente falsas.
Cada sorriso fingido dilacera minha alma taciturna e entendiada. Minhas palavras, suas palavras, as palavras de todos nada são além de um emaranhado de coisas rasas, desculpas para parecer que vale a pena não morrer. E sim...continuo vivendo, respirando, expurgando tudo que há de bom em mim porque meu corpo expulsa, renega a felicidade. Hoje e sempre.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Aura

E aquela mesma música toca novamente. As olheiras que marcam um rosto ainda jovem e lágrimas que fogem dos olhos numa nublada tarde de maio. Cantarolando, a moça sonhava com o dia em que seu amor voltaria dos braços de um guerra já perdida. A amargura crescia num coração culpado pelos erros de um passado recente. As gotas de chuva de uma garoa de domingo deixavam a menina ainda mais sufocada. Gota a gota, minuto a minuto, não podia respirar.
Um coração cálido mascarado de um frieza inexistente. Queria ter o poder de vencer, lutar por aquele que tanto amava. Mesmo sabendo que era piegas, era assim que o chamava, "o meu amado". Sabia aquele amor era clichê, mas ainda assim, era novo, era vivo, pulsava forte e sua mente enlouquecia junto com o sol que a abandonava na escuridão.
Ainda anda, ele, pelos laços da sombria neblina de uma outra paixão denunciada. Torturava-se no silêncio enquanto lembrava do primeiro sorriso quando descobriu que ainda poderia amar. Sim, a ninfa que mexia em seus cabelos anelados, brincou sempre de amar. Não sabia se era isso que acontecia naquele momento, porém nos segundos infinitos da vida o melhor é poder sentir.
Então, lembrou do calor do corpo dele, do corpo dele no dela. O sentimento de não poder voltar, a chama apagou-se, o luar não aparecia. Escuro e medo. A lâmina que clamava, gritava pela ninfa desesperada. Num rompante, pegou sua linda faca afiada, que vivia numa das penteadeiras da moça entristecida. Não, não queria se matar. Só queria ver seu sangue jorrando do seu corpo para ver se conseguia despertar. Abriu a janela e respirou.
Viu seu sangue mistura-se com as gotas de chuva. "Lindo"", pensou. "Sinto a vida antes de você voltar". Sorrindo, viu o domingo indo, indo no infinito daquele amor doentio.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Nas Brumas do passado

Eu nunca achei que tua chegada me deixaria tão sensível. Se pensei outrora que aquela que te carrega não me importava, menti para mim. Desejo melhor fortuna para ti, alma que surgiu de um sonho de anos atrás. Pensava que hoje estaria a te acalentar, porém a magia que te embala é a mesma que me afasta e sei disso.
Sendo muito mais que a Lua me permitiu ser em tua vida, te abeçoo além desta vida. E meu pranto salga tua felicidade eterna que se espanta na alegria que desejei.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ode ao fim

E aquele dia que parecia nunca voltar. Um beijo que selava as dores de uma partida insólita. Nunca te vi, amado reluzente. Mas teus afagos ficaram em minha alma como pedras cravejadas. O som que lembrava o retorno e a despedida. Em teus braços delirei, mas nunca senti.  Era a dor de saber que teu coração a outra pertencia. Mesmo meus lábios selando, havia ali a outra que olhava.  E a gaita tocando ao som da madrugada e o álcool recordando momentos.  Te olhei como da primeira vez, esperando sedenta, mas já não podia pestanejar,não como outrora.  Queria um desfecho e as lágrimas de  um noite de desejo sem fim.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Palavras avulsas


Ela caminhava sozinha em mais uma noite escura de um inverno que parecia nunca acabar. Seu guarda-chuva voava contra ao vento e a garota tentava  não perde-lo. O guarda-chuva também não. Já havia perdido tanto nessa vida. Muito mais do que qualquer um, muito menos que a maioria. Mas era tão normal, tão simplória, talvez medíocre, numa mediocridade muito normal.
Como muitos teve uma infância confusa, seus pais brigavam quase sempre. Moravam separados, mas, quando juntos, brigavam muito. Um casamento arrastado ao longo de quase 18 anos. Então morreu. Morreu seu amado pai e disse adeus para o corpo gélido cheio de flores cheirando a velório. Mas isso não a fazia diferente de muitos. O pai de alguém morre todos os dias. Ela era tão normal que não poderia ser única. Tinha sua irmã. Não conseguia lembrar onde estava sua irmã. A esqueceu em algum lugar, talvez na padaria, não sabia. Mas já não se importava, estava frio, queria chegar a sua casa, dormir se conseguisse. Sofria de insônia a menina.
Caminhava rapidamente com medo de ser vista, não queria ser analisada. Poderia perder mais alguém no encontro. Parece estranho, mas só se perde algo que já se tem. Se naquele caminho encontrasse algo ou alguém para amar poderia perder no meio do percurso. Acendeu um cigarro. Não gostava de fumar, a fumaça a incomodava, mas, ainda assim, acendia mais um. Sua companhia quase sempre. A morte que sorria para ela a cada trago de solidão.
Não tinha namorados, nem um amor. Não acreditava em príncipes, até porque sempre se fez acreditar que não existia uma paixão, um amor verdadeiro o suficiente para durar. Também não era bonita, nem feia. Não se achava bela, mas já tinha visto pessoas menos agradáveis de olhar, por isso, acreditava que não era de todo mal. Talvez fosse muito exigente, tivesse muitas demandas, muito trabalho ou não gostasse de ninguém além dela mesma.
E aí chega ao momento em que se lembra exatamente porque começou a caminhar. Não conseguia mais sentir nada e, ao mesmo tempo, queria gritar, gritar o mais alto que pudesse. Mais um erro, mais uma perda. Sabia que era para sempre, que aqueles anos não valeriam mais nada. Toda sua dedicação, seu empenho foram consumidos pela chama da mentira, aquela mentira que era de todo sua culpa.
Andava na chuva, perdida, cantarolando enquanto sua mente borbulhava. Andou, lentamente até a ponte que amava. Via o sol nascer todos os dias com ele ali, seu bálsamo de alegria num mar de espanto. Lembrou enquanto olhava aquele rio verde e cristalino dos olhos daquele que se foi. “Mais um, pensou”. Mais um e o último que se foi antes dela. Sem pensar, sem querer deixou seu corpo inclinar-se, inclinou-se tanto que caiu, caiu da maior ponte da cidade. Segundos lentos enquanto mergulhava no rio doce dos olhos verdes do fim.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sem mais despertar


E a noite caía. Sussurros espreitavam aquele que dormia no quarto mais distante de uma casa muito antiga. Os móveis rangiam com o vento que soprava derradeiro. A mobília era toda de madeira, trazida de um país muito distante para aquele lar de uma família muito tradicional. Móveis que quase possuíam vida. Ele sabia disso. Por esta razão, fechava os olhos o máximo que conseguia. O medo entre as sombras do desconhecido, o pavor entre o descobrir, o saber e pela falta de razão daquela neblina que escorria entre as finas raízes das árvores em sua janela.

Suspiro arrebatante e delírio. Um homem assombrado por um armário que sorria. Eram as fechaduras muito celestiais que incomodavam aquele rapaz que ali se cobria entre véus e cobertores. Pensar e respirar fundo. Era necessário um pouco de racionalidade, afinal, não existiam armários sorridentes. A noite enganava mais que tudo, a noite despistava o sabor de uma alvorada limpa e sincera. Era cruel.

Não podia mover-se, não, de forma alguma. Um movimento brusco qualquer poderia fazer jorrar todo o sangue do seu corpo ainda intocado, novo, fresco. Um sabor desperdiçado em lençóis tão alvos, brancos, quase cristalinos. Um instante em falso e quase dormiu o infeliz. O sono tentava fazer com que ele mergulhasse em sonhos e fantasias. Maiores até do que as mobílias que o envolviam. Mas para quê uma casa tão cheia de coisas. Mal podia andar por ela, passo a passo, caminhava cuidadosamente nas tardes de inverno enquanto o chão tremia tentando engolir as almas dos moradores daquele taciturno solar. Mas era noite, noite tenebrosa e eterna. O sol parecia impossível para aquele rapaz entristecido pelo tempo, pela falta de cores, luzes.

De repente, uma mulher entre as sombras. Agora queria ver melhor, enxergar aquela que ali, do nada surgiu. Cantava baixinho enquanto mexia em seus cachos rubros, como seus lábios. Entoava uma doce canção sobre a lua cheia que começava a iluminar os brancos lençóis do medroso homem que ali fingia dormir. Queria mover-se para olhar melhor aquela dama que quase flutuava, mas não podia, sua cama de madeira maciça incomodava o corpo quase congelado, quase como uma fotografia. Estava extasiado, numa espécie de delírio, seus olhos, agora abertos, bem abertos, viam aquela estátua e a adorava. Uma moça que o fazia esquecer a maldita casa em que vivia. Talvez pudesse mover-se um pouco, só um pouquinho e então aproximar-se-ia da mulher que lhe roubava os pensamentos. Mas antes que pudesse tomar qualquer decisão, ela inclinou-se para perto do seu rosto. Um doce perfume possuía, de frutas frescas, de verão e céu azulado, de ar puro e liberdade. Suspiros e a canção se alastravam naquele quarto agora iluminado. Queria tocar aquela pele alva e macia, queria beijar aqueles lábios vermelhos, será que era um sonho? Não. Não havia dormido, seu leito permanecia intacto. A boca do seu desejo se aproximava lentamente e olhos grandes e verdes encaravam os seus olhos felinos e cansados. "Eu posso te ver", sorrindo disse o ser divino que o fitava. Sorrio também, não podia mais resistir, levantou seu braço e com as mãos frias tocou o rosto da mulher que na noite cantava.

Era quente aquela face, fervia. Tentou afastar-se, mas já não conseguia tirar sua mão daquele rosto que de belo tornava-se macabro. Gargalhadas ao luar, portas que batiam uma sinfonia da mobília que vivia. Um ardor arrebatante em sua têmpora. Caiu na tentação da beleza, na armadilha do mal que sempre o atormentou. Sentiu cada farpa da madeira do seu leito entrando lentamente em seu corpo. Lágrimas de sangue enquanto a música se espalhava repleta dos lábios rubros da dama que o seduziu. Grandes lascas da madeira maciça, perfurando-lhe o corpo, dilacerando-lhe a alma. Já não podia pensar delirar, dormir, sonhar, nem ao menos resistir. Tremia todo o seu corpo, se debatia alucinado pela dor dilacerante, sufocante de ser engolido pela própria cama. Lábios rubros, móveis antigos e o silêncio daquele enterrado no sono profundo e eterno e naquele lar jaziam.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O som do nada


Entre sombras aparecia, provocando as brumas de uma madrugada insólita. Olhava como se já soubesse, com seu sorriso felino,com lábios que imploravam por mais um beijo frio numa noite de solidão. Aquela ninfa sabia.Sabia antes do beijo que a condenaria. Não era mais nada além daquele sonho ao luar. Chovia daquele sol cálido e manso.

Surgiu quando sem esperar. Não sabia dizer não. Luzes em meio a trevas que se dissolviam numa terra que jamais foi vista. Seus pés machucados, imploravam por misericórdia. O sangue escorria lentamente enquanto chorava ao entardecer. Mais um dia,mais uma noite. Ódio pulsante por não ser a amada dos seus sonhos.

Mas não voaria mais entre estrelas flamejantes. A sereia dos seus sonhos estava presa entre pesadelos dos maiores tipos. Era brisa,ventania, era tempestade. Um espelho que não refletia nada. Uma alma vazia e repleta de vozes que gritavam em sussurros aterrorizante. Pedras e mais pedras. Feriam o rosto daquela dama que sem medo pestanejava.

Suas ideias embargadas de vinho e lágrimas viajavam no vento vermelho de um desejo de outrora. Silêncio e o desejo daquela que pulsa, daquela entre lamurios de uma doce caminhada. Estava confusa com os emaranhados dos ébrios em sua existência. Divina luz que a atormenta enquanto balança nos lábios de quem não a ama.

A ninfa dos seios arfantes, a bossa que a carrega nos conflitos da resistência de uma livre alma. A vida que passa num longínquo segundo e ainda aquele que a deixou entre o mar infinito da vida que já não se lembra.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Para aquela quarta-feira



A chama se apaga.
Silêncio.
A vida que corre em busca de uma outra vida.

A música púrpura
Tocando enquanto te beijo
Ao dançar.

Saudade e cigarros.
Um gosto de menta e vinho barato.
As voltas que dei enquanto esperava calada.

Teu fogo faz minha alma delirar
Enquanto foge e te vejo ao longe
Indo a outra buscar.

Luzes e raios em mais um entardecer
Viagem de sonhos e delírios
Meus seios arfantes
Somente buscam seu olhar.

Não existe contentamento
Só aquele instante


Distante de mim
Vejo barcos ao luar
Se pudesse era lá que eu estaria
Flutando num mar profundo
Para meu corpo salgar.

Para uma tarde de outubro


Cores flutuam
Um mar que banha meus pés
As lágrimas salgam meus olhos.

Luar repentino em sol
Vazio imenso
Uma dor nunca se cura
Na eternidade das flores ao recordar.

Teu beijo frio
Que lembra o outrora
Balança meu corpo de volta ao passado.

Vejo ali, na espuma das ondas
Um corpo gélido
Na areia a se enterrar

São cravos?
Não. Rosas...amarelas,douradas.
Como teu cabelo que brilha
Num sonho que para sempre me atormentará.

Tempestade infinita
Volta para teu berço celistial
E diga adeus como eu estivesse contigo.

Tentei escapar jogando-me nas profundesas
De um mar que nunca se finda
De um mar que não vai com aquele que não pude mais uma vez falar.

O cavaleiro num cavalo branco
Me tomou dos braços de Yemanjá
Mesmo sabendo que eu nunca serei sua dama
Pois sou suja demais para em seu leito deitar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Dançando ao fim do luar II

Delícia amarga de um peito arfante numa madrugada fria.Seus olhos languidos calavam o silêncio de uma madrugada triste e cheia de fantasias.Era ela, novamente.Pálida ninfa,sereia dos sonhos indesejados, cravando-lhe na alma a lança da dor. Lentamente, deitava no chão que fervia e delirava num vício que sabia que não era seu, nem de ninguém.
Ele, numa cadeira dourada rodeada de rosas em chamas.Ardia,ardia num profundo pavor,num delicioso medo.Tudo era permitido e proibido.Risos altos da varanda ao lado. Fumaças e mais uma dose de vodka russa,sempre russa. Dançava entre palavras e sussurros enquanto o outro a assistia. Dança perigosa e sutil. Afagos, beijos,pele e mais vícios.
A luz e as cinzas, um cigarro flutua na escuridão. Volte, ela gritava,ao amado que partia entre as nuvens. Sua mente enlouquecia, seus gritos mudos se espalhavam na imensidão do nada. Luzes e raios de uma tempesade que não se acaba, de um tormento que é eterno, das lágrimas que salgam e amargam a vida daquela menina, sereia,ninfa.
Lábios rubros e olhos fechados. Carne viva e dilacerada. Fugindo sem rumo, viajando ao luar, de porto em porto buscando alguém que já não existe. Sentava na varanda enquanto lia mais um poema sujo que alimentava seu espírito. Poetas imundos como ela. A bela dama que sorria para o mundo que tanto a odiava, sorria engulindo as lágrimas, clamando por um novo dia que seria igual ao anterior. Dorme sereia,dorme...no seu mar de pranto e solidão.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O aniversário

Em mais um amor perdeu-se a bela ninfa sonhadora. Sentia-se como uma idiota, entregue de bandeja para aquele que somente beijou-lhe uma vez. Nos seus longos cabelos passava as mãos e cantava enquanto a dama abandonada o admirava de longe, triste, sozinha.Uma chuva púrpura escorria dos olhos amargos e desiludidos da inconsequente menina. Veneno que envolve e banha a alma. Olhares que denunciam, desejos reprimidos e condenados ao esquecimento. Um perfume doce que havia sido derramado, desperdiçado.
 Mas enfim, avistou  um cavaleiro que a salvou das amarras do amor, a fez lembrar da delícia da luxúria e esquecer a ternura de amar. Ele somente a olhou e então a ninfa sorriu sabendo que podia beijar o sedutor que a tentava. Marcas, afagos e a tentativa de resistir ao impossível. Cervejas e mais cervejas libertavam pudores. Fingia que não se importava tanto, afinal, não queria entregar-lhe seu coração e ,portanto, seu corpo. Não deveria saborear o veneno da paixão. Quanto mais fria fosse melhor para não voltar ao precipício da solidão de quem ama.